Duas pessoas contam a mesma cena do mesmo jeito, cada uma com a própria dor dentro dela, e você precisa escrever o que aconteceu na sessão sem transformar o registro de uma pessoa num relatório sobre a outra. Isso é o que muda quando o atendimento é em grupo: o prontuário deixa de ser a memória de uma pessoa só e passa a lidar com o relato de várias, na mesma folha, no mesmo horário.
Este texto foi pesquisado em 1º de setembro de 2026, e a lacuna precisa ficar declarada antes de qualquer orientação prática. Verifiquei a Resolução CFP nº 001/2009, que institui o registro documental da profissão, e a Resolução CFP nº 6/2019 comentada, que detalha os documentos psicológicos. Nenhuma das duas trata especificamente de registro de atendimento em grupo terapêutico. O que existe são os princípios gerais do Código de Ética Profissional do Psicólogo, e este texto os aplica por analogia ao contexto de grupo, deixando claro onde termina a norma e começa a interpretação.
O que a Resolução CFP 001/2009 exige, e o que ela não prevê para grupo
A resolução trata o registro documental como algo devido à pessoa atendida, individualmente: o Art. 9º do Código de Ética fala em proteger, por meio da confidencialidade, "a intimidade das pessoas, grupos ou organizações" a que o psicólogo tem acesso, mas isso descreve o dever de sigilo, não o formato do prontuário quando várias pessoas dividem o mesmo horário de atendimento. Não há artigo que diga se cada participante do grupo tem prontuário próprio ou se existe um prontuário do grupo como unidade. A prática que este texto recomenda parte do princípio mais próximo que a norma oferece, e que orienta o restante do texto: o prontuário pertence a quem é atendido, e cada pessoa que participa do grupo é, individualmente, alguém atendido.
Um prontuário por participante, não um prontuário do grupo
A consequência prática do parágrafo anterior é direta. Cada integrante do grupo tem prontuário próprio, com o registro daquilo que ele trouxe, do que evoluiu com ele, do que você observou nele. Não existe um documento único chamado "prontuário do grupo" que sirva de registro coletivo para todos ao mesmo tempo, porque isso misturaria, no mesmo campo de acesso, informação de uma pessoa que outra pessoa poderia, em tese, requisitar ver. Se um participante pedir acesso ao próprio prontuário, ele só pode encontrar ali o que diz respeito a ele.
O que registrar sobre a interação sem nomear quem disse o quê
O problema prático de quem já tentou fazer isso: boa parte do que acontece de clinicamente relevante num grupo é a interação entre os participantes, não o que cada um trouxe isoladamente. A saída que preserva o sigilo é registrar o padrão de interação no prontuário de quem protagonizou aquele momento, sem citar nome de outro participante. Em vez de "confrontou a fala de [nome]", registre "reagiu com irritação a uma colocação de outro integrante sobre limites familiares". A cena continua legível clinicamente, mas o prontuário de uma pessoa deixa de funcionar como fonte de informação sobre outra.
O consentimento de grupo é diferente do consentimento individual
No atendimento individual, o combinado de sigilo é entre duas pessoas. No grupo, cada participante também assume, para os outros, o compromisso de não repetir fora dali o que ouviu. Isso não é uma garantia que você, como profissional, pode oferecer: você não controla o que um participante faz com o que ouviu de outro fora da sala. O que cabe ao seu contrato terapêutico é deixar isso explícito por escrito, e o texto sobre como precificar e organizar um grupo terapêutico trata dessa cláusula específica na seção sobre o sigilo entre participantes, que é o lado contratual desta mesma questão.
Quando um integrante pede para ver o próprio prontuário
A pessoa atendida pode, em situações previstas, acessar o próprio prontuário. Num grupo, esse acesso precisa continuar restrito ao que é dela. Se o seu registro seguiu a prática de não nomear outros participantes, entregar o prontuário individual de quem pediu não expõe ninguém além da própria pessoa. É por isso que a separação por participante, descrita acima, não é burocracia: é a única forma de um pedido de acesso individual não se transformar, sem querer, num vazamento sobre o grupo inteiro.
Um modelo de registro que separa o que é dele do que é do grupo
Um formato que funciona na prática divide cada entrada de sessão de grupo em duas partes, copiadas e adaptadas para o prontuário de cada participante:
Contexto da sessão de grupo. Uma linha genérica, igual para todos os prontuários daquele dia: tema trabalhado, técnica utilizada, número de presentes. Não precisa ser sigilosa porque não identifica ninguém além do fato de ter participado.
Evolução individual. O que é específico daquela pessoa: o que ela trouxe, como reagiu, o que você observou nela. Esta parte muda de prontuário para prontuário, mesmo dentro da mesma sessão.
Sessão de grupo · 14/08/2026 · tema: limites em relação familiar · 6 presentes.
Evolução individual: trouxe episódio de dificuldade em dizer não ao pai. Reagiu com desconforto visível a uma colocação de outro integrante sobre o mesmo tema, sem se posicionar verbalmente. Segue apresentando padrão de evitação em situações de confronto direto, consistente com sessões anteriores.
Grupo terapêutico não é a mesma coisa que prontuário coletivo de saúde pública
Vale uma diferenciação, porque o termo "prontuário coletivo" existe na literatura, mas em outro contexto. Um artigo publicado na Revista Pesquisas e Práticas Psicossociais, sobre o registro do psicólogo na Estratégia Saúde da Família, descreve o uso de prontuário coletivo dentro de equipamentos públicos de saúde, onde múltiplos profissionais de diferentes categorias registram no mesmo documento de família ou território. É um modelo pensado para a lógica da atenção primária, com regras próprias de acesso multiprofissional que não se aplicam automaticamente ao grupo terapêutico de consultório particular ou clínica privada, que é o escopo deste texto. Misturar os dois modelos, achando que o formato de prontuário coletivo da saúde pública resolve o registro de um grupo terapêutico particular, ignora que o contexto de acesso, controle e finalidade dos dois é diferente.
Grupo psicoeducativo tem a mesma exigência de registro?
Grupo psicoeducativo (voltado a informar e orientar, sem ser psicoterapia propriamente dita) segue o mesmo princípio de separação por participante descrito acima, ainda que o conteúdo clínico registrado tenda a ser mais enxuto. A diferença prática está no volume: um grupo de psicoeducação sobre manejo de ansiedade, por exemplo, pode gerar um registro mais breve por pessoa a cada encontro, enquanto um grupo terapêutico com elaboração mais profunda pede uma evolução individual mais detalhada. O formato de separação continua sendo o mesmo, porque o motivo dele (evitar que o prontuário de uma pessoa vire relato sobre outra) não muda com a profundidade do trabalho.
Checklist antes de registrar uma sessão de grupo
- O prontuário está separado por participante, não é um documento único do grupo?
- A interação entre participantes está descrita sem nomear quem disse o quê?
- O contrato terapêutico do grupo, tratado em como precificar e organizar um grupo terapêutico, deixa claro o limite do que você pode garantir sobre o sigilo entre eles?
- Se um participante pedir acesso ao próprio prontuário, o documento entregue expõe alguém além dele?
- A rotina de guarda segue o mesmo prazo e critério do prontuário individual?
Nada disso substitui uma norma específica sobre registro de grupo, que hoje não existe publicada pelo CFP. O caminho descrito aqui aplica, por analogia, o mesmo princípio que já rege o registro de qualquer sessão: o documento serve a quem é atendido, e no grupo isso significa servir a cada um deles, sem virar relato sobre os outros. Em caso de dúvida sobre um formato específico de grupo, a orientação do seu Conselho Regional de Psicologia é o caminho para fechar o que a norma nacional ainda deixa em aberto.
Conteúdo informativo, escrito para apoiar a sua prática. Não substitui a leitura das normas vigentes do CFP nem a orientação do seu conselho regional.
