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Triagem antes da primeira sessão: você é a pessoa certa para o caso?

A base da recusa técnica está no Código de Ética, não no gosto pessoal. O que perguntar no primeiro contato e onde encaminhar.

· Atualizado em · 7 min de leitura

Mão escrevendo em uma lista de itens num caderno
Foto: StockSnap (domínio público)

A triagem de pacientes antes da primeira sessão é a etapa que decide se um caso deveria nem chegar à sua agenda. É também a que a maioria dos consultórios pula. Vão direto do primeiro contato para o agendamento. A base ética para essa decisão não é opinião pessoal. Está escrita no Código de Ética Profissional do Psicólogo, na Resolução CFP nº 010/2005.

O artigo 1º, alínea b, lista entre os deveres fundamentais do psicólogo "assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente" (Código de Ética Profissional do Psicólogo, CFP, acesso 2026-09-01).

Isso não é um convite. É um dever. Aceitar um caso fora do seu preparo técnico não é excesso de zelo comercial. É infração ética documentada.

O que a triagem é, e o que ela não é

Triagem não é a anamnese. A anamnese acontece depois que o caso já foi aceito, e o roteiro dela está em anamnese: roteiro adaptável. Triagem é anterior. Acontece no primeiro contato, geralmente por telefone, WhatsApp ou formulário, antes de qualquer sessão agendada. E responde a uma pergunta diferente: este caso é compatível com o que eu atendo, do jeito que eu atendo?

Triagem também não é filtro de conveniência, tipo "só atendo quem paga à vista" ou "não atendo quem mora longe". Esses são critérios de negócio, legítimos até certo ponto, mas diferentes do critério ético de compatibilidade clínica que este texto trata. Misturar os dois tipos de critério na mesma conversa costuma soar, e às vezes ser, discriminatório. O artigo 2º, alínea a, do mesmo Código veda isso de forma explícita. É vedado ao psicólogo "praticar ou ser conivente com quaisquer atos que caracterizem negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão".

As perguntas que a triagem precisa responder

Antes de marcar a primeira sessão, quatro perguntas resolvem a maior parte dos casos.

  1. O motivo declarado está dentro da sua abordagem e experiência? Um psicólogo recém-formado, sem formação específica em transtorno alimentar grave, é um exemplo comum. No sentido literal do artigo 1º, b, ele não está capacitado a assumir um caso desse tipo sem supervisão adequada ou formação complementar.
  2. Há sinal de risco que exige estrutura que você não tem disponível agora? Ideação suicida ativa, uso de substância em quadro agudo, ou acompanhamento psiquiátrico concomitante que o paciente ainda não tem, são sinais que mudam a resposta. Nem sempre para recusa, mas para uma condição. "Eu atendo, com psiquiatra em paralelo" é uma resposta possível. "Eu atendo sozinho, sem rede de apoio nenhuma", em um quadro de risco alto, geralmente não é.
  3. Existe algum vínculo prévio que compromete a neutralidade? Amigo, familiar, ex-colega de trabalho próximo. O artigo 2º, alínea j, veda "estabelecer com a pessoa atendida, familiar ou terceiro, que tenha vínculo com o atendido, relação que possa interferir negativamente nos objetivos do serviço prestado". Se a resposta é sim, a triagem termina em encaminhamento, não em sessão.
  4. A sua agenda tem, de fato, espaço para esse caso específico, e não só um horário vago? Um caso complexo, que exige leitura entre sessões e supervisão extra, ocupa mais do que o bloco de 50 minutos na grade. Aceitar por ter horário livre, sem considerar essa carga adicional, alimenta o esgotamento descrito em burnout do psicólogo: como reconhecer.

Quando a resposta é recusar, ou encaminhar

O mesmo Código que exige capacitação técnica também prevê o que fazer quando ela falta. O artigo 1º, alínea k, lista entre os deveres do psicólogo "sugerir serviços de outros psicólogos, sempre que, por motivos justificáveis, não puderem ser continuados pelo profissional que os assumiu inicialmente, fornecendo ao seu substituto as informações necessárias à continuidade do trabalho". A redação trata do caso de processo já em andamento. Mas o princípio, o de garantir continuidade de cuidado em vez de simplesmente fechar a porta, vale igualmente para a triagem. Recusar sem indicar alternativa deixa a pessoa sem rumo num momento em que ela já reuniu coragem para procurar ajuda.

Na prática, isso significa manter uma lista curta de colegas de confiança. Organize por especialidade e abordagem, para indicar quando o caso não é o seu. Não é preciso conhecer profundamente cada nome da lista. É preciso saber, com razoável segurança, que a pessoa está apta para aquele tipo específico de demanda.

Como conduzir a conversa de triagem sem parecer um interrogatório

A triagem acontece, na maioria das vezes, num contato rápido. O tom importa tanto quanto o conteúdo. Três perguntas simples, feitas com calma, cobrem o essencial sem transformar o primeiro contato numa avaliação formal.

  • "O que te trouxe a procurar terapia agora?" Uma pergunta aberta, que revela o motivo principal sem forçar detalhe clínico que ainda não é hora de pedir.
  • "Você já fez terapia antes? Como foi?" Histórico de tratamento e eventual interrupção ajudam a entender continuidade e risco.
  • "Você está em acompanhamento com algum outro profissional de saúde no momento?" Psiquiatra, neurologista, outro especialista. A resposta muda o plano de cuidado e, às vezes, já indica que o caso pede trabalho conjunto desde o início.

Se as respostas confirmarem compatibilidade, o próximo passo é agendar. O que fazer a partir dali está em como conduzir a primeira sessão de psicoterapia. Se não confirmarem, a conversa de recusa ou encaminhamento é curta e honesta. Algo como: "pelo que você me contou, acho que você vai ser mais bem atendido por um colega com mais experiência nessa área específica, posso te indicar alguém?" Isso protege o paciente e protege você.

Triagem também é decisão de capacidade, não só de compatibilidade

Existe um segundo motivo, menos discutido, para recusar um caso compatível com sua especialidade. Você simplesmente não tem espaço real para atendê-lo bem naquele momento. Aceitar mais um caso porque a agenda tem um horário livre é diferente de aceitar porque o caso cabe na sua energia clínica disponível. Isso é decisão de negócio disfarçada de disponibilidade técnica. Em períodos de maior procura, como os discutidos em Setembro Amarelo e Janeiro Branco: como planejar a agenda, esse critério de capacidade real evita que uma agenda cheia demais no papel vire atendimento raso na prática.

Uma ficha curta de triagem, para não depender da memória

Anotar as respostas da conversa de triagem, mesmo em cinco linhas, evita duas coisas. A primeira é esquecer o motivo real de uma recusa passada, quando a mesma pessoa procura de novo meses depois. A segunda é perder o registro que sustenta a decisão caso ela seja questionada. Uma ficha simples cobre o essencial.

  • Nome e contato de quem procurou.
  • Motivo declarado, em poucas palavras, na linguagem da própria pessoa.
  • Histórico de terapia anterior, se houver.
  • Acompanhamento simultâneo com outro profissional de saúde, se houver.
  • Sinal de risco identificado, se houver.
  • Decisão: aceito, aceito com condição, encaminhado, e para quem.

Isso não precisa de sistema sofisticado. Uma planilha ou um campo de anotação na própria agenda já resolve. O ganho aparece meses depois, quando a memória de um contato pontual já se perdeu.

Recusar não é abandonar, desde que a comunicação seja clara

O medo mais comum de quem começa a fazer triagem de verdade é soar frio ou rejeitando alguém em momento de vulnerabilidade. A diferença entre recusa cuidadosa e abandono está na explicação e na alternativa oferecida, não na existência da recusa em si. Dizer "não trabalho com esse tipo de caso, mas conheço colegas que trabalham, posso te passar o contato" é cuidado, mesmo sendo uma recusa. Ficar em silêncio, não responder, ou aceitar um caso incompatível só para não desagradar quem pediu ajuda tende a gerar dano maior. Ele aparece no meio do processo, quando a limitação técnica fica mais custosa para o próprio paciente.

Um roteiro curto para adotar

  • Antes de agendar, faça as quatro perguntas de compatibilidade: abordagem, risco, vínculo prévio, capacidade real.
  • Mantenha uma lista atualizada de colegas para encaminhamento, organizada por especialidade.
  • Separe, na sua cabeça e na conversa, critério clínico de critério comercial.
  • Documente, ainda que em poucas linhas, o motivo de qualquer recusa ou encaminhamento, para ter registro caso a decisão seja questionada depois.
  • Revise a lista de encaminhamento a cada seis meses, porque colegas mudam de foco, de cidade e de disponibilidade.

Triagem bem feita custa alguns minutos a mais no início. E evita meses de um processo que não deveria ter começado daquele jeito, para você e para quem procurou ajuda.

Conteúdo informativo, escrito para apoiar a sua prática. Não substitui a leitura das normas vigentes do CFP nem a orientação do seu conselho regional.

Registro de sessão em cinco linhas, no mesmo dia.

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