Avaliação psicológica

Corrigir um instrumento e ler o percentil

O escore bruto vira percentil, classificação e escore convertido. O que a tela pede antes de converter, como se escolhe a amostra normativa, e o que "nenhuma tabela cobre" quer dizer.

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Depois de aplicar o instrumento, você digita o escore bruto e o sistema devolve o percentil, a classificação e o escore convertido que o manual daquele teste usa — ponto ponderado, escore T, escala-v, pontuação-padrão, conforme o caso.

A correção acontece dentro do processo de avaliação, na aba do instrumento aplicado.

O que o sistema precisa saber para converter

A tabela normativa certa depende de quem foi avaliado. O sistema usa o que já está na ficha do paciente e pede o resto na hora, e só quando aquele dado mudaria a resposta:

  • idade, calculada da data de nascimento;
  • sexo, quando o manual publica normas separadas;
  • escolaridade ou anos de estudo, nos instrumentos que estratificam por isso;
  • rede de ensino — escola pública ou particular —, em alguns testes brasileiros;
  • amostra normativa, quando o instrumento tem mais de uma para o mesmo perfil.

Se falta um desses, a tela diz qual falta em vez de simplesmente não converter. E ela só pergunta o que resolve: pedir escolaridade a quem tem seis anos não adianta se nenhuma tabela daquela idade olha escolaridade.

A escolha da amostra

Alguns instrumentos publicam mais de uma norma para a mesma pessoa. Acontece em três situações:

  • o manual traz normas regionais — o NEUPSILIN-Inf tem Porto Alegre e São Paulo, e a criança paulista não se compara com a curva gaúcha;
  • o teste tem formulários diferentes — no SRS-2, na Vineland-3 e no SDQ, o professor vê a criança na escola e o cuidador a vê em casa, e os pontos de corte não são os mesmos;
  • existe uma edição anterior da norma, guardada para que laudo antigo continue reproduzindo.

Nesses casos o sistema não escolhe por você. Ele lista as amostras com o nome e a fonte de cada uma e espera a sua decisão, porque quem aplicou sabe qual caderno usou e qual tabela o caso pede.

Enquanto você não escolhe, o resultado não sai. É de propósito: escolher sozinho entre duas tabelas igualmente válidas faria o percentil do laudo depender de uma decisão que ninguém tomou.

Quando aparece "nenhuma tabela cobre"

Essa mensagem não é erro do sistema. Ela quer dizer que o manual não publica norma para aquela combinação — aquela idade, aquela escolaridade, aquele subteste.

É informação, e das úteis: aplicar um instrumento fora da faixa normativa dele é falha técnica, e é melhor descobrir na correção do que no laudo pronto.

Quando isso acontecer, confira a faixa etária do instrumento no catálogo. Se a idade estiver dentro e mesmo assim não converter, provavelmente falta o dado que a tela pediu logo acima.

A síntese por função

Depois de apurar, a etapa de instrumentos mostra a Síntese por função: todos os resultados da bateria numa tabela só, agrupados pela função cognitiva de cada instrumento — eficiência intelectual, funções executivas, atenção e memória, e assim por diante.

Ela existe para o momento de escrever a análise. Ler uma bateria de oito instrumentos abrindo oito telas é como um número é transcrito errado; aqui o bruto, o convertido, o percentil e a classificação de cada medida estão lado a lado, na ordem em que a bateria se monta.

A mesma síntese abre o relatório de resultados em PDF, antes do detalhamento de cada instrumento. Só aparece quando há mais de um instrumento apurado: com um só, ela repetiria a tabela que vem logo abaixo.

A análise de discrepâncias (WISC-IV e WAIS-III)

Nas escalas Wechsler, o resultado não termina no escore. O manual manda comparar índices entre si, subtestes entre si, e cada medida com a própria média — e publica, para cada comparação, o valor crítico e a frequência acumulada.

Assim que os escores convertidos entram, o quadro Análise de discrepâncias aparece abaixo da folha de escores, com uma linha por comparação:

  • a diferença, com sinal, para dizer para que lado a balança pende;
  • o valor crítico do manual — e ele muda com a idade, quando o manual publica tabela por faixa etária. Se o paciente tem data de nascimento no cadastro, o sistema usa a tabela da idade dele; sem nascimento, usa a da amostra geral, que é o que o manual publica para esse caso;
  • se a diferença é significativa (p<0,05);
  • a taxa base: quantos por cento da amostra normativa apresentam diferença desse tamanho.

As duas últimas colunas respondem perguntas diferentes, e é por isso que as duas estão lá. Uma diferença de dez pontos entre o ICV e o IOP pode ser estatisticamente significativa e aparecer em quarenta por cento das crianças normais — significativa, e banal. A mesma diferença em dois por cento é achado.

Quando o manual só publica limiares — 1%, 2%, 5%, 10% e 25% —, a taxa base sai em faixa ("> 2% e < 5%"). O sistema não interpola: a norma não diz quanto vale o que está entre dois limiares, e um número inventado no meio viraria citação de manual no laudo.

No WISC-IV a taxa base ainda muda com o nível de habilidade. Um ponto de diferença entre ICV e IOP aparece em 47,6% das crianças de QI médio e em 53,8% das que têm QI Total abaixo de 79. Se o QI Total já foi apurado, o sistema usa a tabela da faixa dele e mostra qual foi; sem QI Total, usa a da amostra geral.

Algumas comparações não são teste de significância. As comparações clínicas entre clusters usam um limiar de raridade, e a coluna do veredito diz "Raro" em vez de "Sim (p<0,05)" — porque é o que o manual diz, e chamar aquilo de significativo atribuiria à comparação um teste que ninguém fez.

Quando o manual publica uma hipótese para a diferença, ela aparece logo abaixo da linha, junto com a sugestão de intervenção. São textos do manual, e mudam com o sentido: "Raciocínio Fluido acima de Processamento Visual" e o inverso têm leituras opostas.

O quadro abre com o total de comparações significativas e, por padrão, mostra só elas. O WISC-IV tem quarenta e quatro comparações cadastradas e o WAIS-III, oitenta e cinco; a lista inteira fica a um clique, para conferir contra o manual.

As mesmas comparações saem no relatório de resultados em PDF — ali com as não significativas também, porque em tabela a linha "Não" informa que a comparação foi feita — e as significativas viram frase na seção Resultados do laudo.

Os clusters CHC e a interpretabilidade (WISC-IV)

Os quatro índices fatoriais são a estrutura da escala. Os oito clusters são outra leitura da mesma aplicação, na taxonomia de Cattell-Horn-Carroll: juntam dois ou três subtestes que medem a mesma habilidade estreita e devolvem um composto próprio, com percentil e intervalo de confiança.

Servem para o que os índices não respondem. Um IOP de 95 com Cubos 13 e Conceitos com Figuras 6 não descreve ninguém — mas Gv alto contra Gf-nonverbal baixo descreve: a habilidade visual concreta está preservada e o raciocínio com estímulo não verbal não está.

O sistema calcula sozinho a soma dos ponderados de cada cluster, e o campo continua editável — o manual autoriza substituir um subteste invalidado, e a soma automática passaria a somar a trinca errada.

Junto vem a dispersão: a diferença entre o maior e o menor ponderado das medidas que compõem cada escore.

  • cluster e índice fatorial: a partir de 5 pontos, o composto é média de coisas diferentes e não se interpreta;
  • QI Total, GAI e CPI: a partir de 23 pontos compostos entre as medidas que os compõem.

O sistema mostra o composto com o aviso ao lado, e não o esconde. A planilha original escondia; esconder um número que o profissional calcula à mão não impede o uso indevido — só o deixa sem o aviso.

No WAIS-III existe o equivalente: os mesmos oito clusters (com outra composição de subtestes, que é a que o manual do WAIS publica), a dispersão entre os subtestes de cada índice (homogêneo abaixo de 5) e a dispersão entre conjuntos de subtestes, com a porcentagem da amostra que apresenta cada tamanho — publicada para oito conjuntos, porque a dispersão de seis medidas não se compara com a de catorze.

Os índices e os clusters agora saem classificados: "Média Superior", "Superior", e assim por diante, ao lado do composto e do percentil. É a palavra que o protocolo imprime e a que vai para o laudo.

O teste-idade (WISC-IV)

Além do ponto ponderado, o WISC-IV converte o bruto em equivalente teste-idade: "este desempenho é o de uma criança de 7 anos e 2 meses". É a leitura que fala com a escola e com a família, e a que mostra evolução entre duas aplicações.

Ela lê o mesmo escore bruto do subteste, então o sistema preenche sozinho. Código e Procurar Símbolos têm duas tabelas, uma para 6 e 7 anos e outra para 8 a 16 — o sistema escolhe pela idade do paciente.

Os escores de processo

O WISC-IV e o WAIS-III têm medidas que o protocolo apura além dos subtestes principais, e elas ficam num bloco próprio na folha de escores:

  • Cubos sem bonificação de tempo, Dígitos em ordem direta e em ordem inversa separados, Cancelamento aleatório e estruturado;
  • a sequência maior de dígitos alcançada em cada ordem, que o manual lê por frequência acumulada e não por ponto ponderado.

Elas respondem "por que este subteste saiu baixo": Cubos baixo com Cubos sem bonificação normal é lentidão, não é raciocínio perceptual.

A diferença entre as duas sequências maiores é calculada pelo sistema — é subtração, e na folha de papel ela era feita à mão entre duas linhas recém-escritas.

Escalas que se leem por contagem de sintomas

Algumas escalas não se leem pela soma. Na SNAP-IV, o critério do manual conta quantos itens foram marcados em "Bastante" ou "Demais": seis de nove na desatenção, seis de nove na hiperatividade, quatro de oito no comportamento opositor.

A diferença é clínica, não decorativa. Nove itens marcados "Só um pouco" somam 9 e não são sintoma nenhum; seis marcados "Demais" somam 18 e são o quadro inteiro — e os dois passariam pela mesma faixa de soma.

Nessas escalas o sistema mostra as duas leituras: a soma com a faixa dela, e a contagem com o critério. A contagem aparece assim que os itens marcados bastam, mesmo com a escala incompleta, porque o critério é "pelo menos N sintomas".

Escalas que se leem pela média, e não pela soma

Nem todo instrumento soma. No QEDP, cada fator é a média dos itens dele, e cada estilo é a média dos fatores — é assim que o número se compara com a norma: média 4,3 e desvio 0,6 são valores da escala do item, e a soma dos cinco daria 21,5, que não se compara com nada.

Nessas escalas o sistema mostra o escore da subescala com o z e o percentil ao lado, e a classificação sai do z. O total não aparece: somar a média do apoio afetivo com a da punição produziria um número que norma nenhuma lê.

O que o sistema não faz

Não inventa norma. Onde o manual imprime faixa em vez de número — "percentil entre 20 e 25" —, não há número para guardar, e o campo fica vazio em vez de receber um valor aproximado.

Não corrige tabela do manual. Alguns instrumentos têm erro de impressão conhecido, e há tabelas que a origem marca como pendentes de errata. Essas não entram, e o instrumento fica sem aquela conversão específica — em vez de converter com um número que ninguém conferiu.

Não distribui enunciado de teste protegido. Alguns instrumentos entram só com a estrutura de correção: você soma as escalas no papel, digita os escores e recebe a classificação. É o caso do SDQ, cujo formulário se baixa no site dos autores.

Não decide o significado clínico. O percentil e a classificação são conversões estatísticas. A leitura é sua, e o laudo é assinado por você.

Um aviso sobre escalas de sintoma

Em instrumentos de sintoma — ansiedade, TDAH, comportamento —, pontuação alta significa mais sintoma, e não melhor desempenho. A classificação segue a convenção do manual do instrumento, então "Superior" numa escala de ansiedade quer dizer mais ansiedade.

Vale conferir o sentido da escala antes de transcrever a classificação para o laudo. É a mesma leitura que se faz no papel, e ela não muda por estar na tela.