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Gestão e rotina

Por que a procura por psicoterapia está crescendo no Brasil

O INSS concedeu 546.254 benefícios por transtorno mental em 2025, 15,66% a mais que em 2024. O que esse número diz sobre a fila que chega ao consultório.

· Atualizado em · 7 min de leitura

Tablet com gráficos e relatórios impressos sobre uma mesa de madeira
Foto: StockSnap (domínio público)

A procura por psicoterapia aumentou no Brasil, e há fonte oficial para sustentar isso. Em janeiro de 2026, o Ministério da Previdência Social divulgou um número: em 2025, o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária com diagnóstico de transtorno mental e comportamental (Capítulo V da CID-10). Um ano antes, em 2024, foram 472.328. A alta é de 15,66%.

Não é um pico isolado. É a continuação de uma curva que já vinha subindo. De 2023 para 2024, o mesmo tipo de afastamento havia crescido 68%, segundo reportagem do Jornal da USP publicada em abril de 2025, com base em dados do INSS. Dois anos seguidos de crescimento de dois dígitos mudam o tamanho da fila que chega ao seu consultório. Mesmo que você não atenda nenhum desses casos diretamente: a mesma pressão que gera afastamento também gera busca por terapia antes que o afastamento aconteça.

O que os números da Previdência mostram, exatamente

O comunicado do Ministério da Previdência Social detalha três coisas. Elas interessam a quem organiza uma agenda de consultório.

Quem procura mais. Das 546.254 concessões de 2025, 346.613 foram para mulheres (63,46%) e 199.641 para homens (36,54%). A proporção se repete ano após ano nesse tipo de benefício. Ajuda a explicar por que a maioria dos consultórios de psicologia no Brasil tem mais mulheres na agenda do que homens. Não é só perfil de quem procura terapia. É perfil de quem adoece de forma reconhecida pelo sistema previdenciário.

Onde a demanda é maior. São Paulo lidera com 149.375 benefícios concedidos em 2025, seguido por Minas Gerais (83.321) e Rio Grande do Sul (46.738). Os três estados mais populosos do país também concentram o maior volume absoluto. O dado não diz nada sobre taxa por habitante, só sobre onde está o maior número de pessoas afastadas.

Quais diagnósticos pesam mais. Os transtornos ansiosos (CID F41) somaram 166.489 benefícios em 2025. Vêm à frente dos episódios depressivos (F32), com 126.608, e do transtorno afetivo bipolar (F31), com 60.904. Ansiedade e depressão seguem sendo, juntas, o maior bloco entre os transtornos mentais que tiram alguém do trabalho.

A curva não começou em 2024: vem desde antes da pandemia

Olhar só os dois últimos anos esconde o tamanho real do movimento. Segundo estudo da Fundacentro, fundação vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, divulgado em março de 2026, a concessão total de benefícios previdenciários por transtorno mental e comportamental cresceu 104,07% entre 2019 e 2024. Foram 235.935 casos em 2019, ano anterior à pandemia, contra 472.328 em 2024. Somando o salto de 2025, o total mais do que dobrou em seis anos.

Há um detalhe que a pesquisa da Fundacentro destaca, e que muda a leitura do dado. Quando se isola só os benefícios com nexo ocupacional reconhecido, o código B91, que atesta que a doença tem relação direta com o trabalho, o número caiu 12,91% no mesmo período. Isso apesar do total mais do que dobrar. Em 2019, apenas 11.278 dos 235.935 casos (4,78%) tiveram esse nexo reconhecido.

A pesquisadora Maria Maeno, médica da Fundacentro, atribui parte dessa distância à forma como a perícia do INSS avalia o vínculo entre adoecimento e trabalho. Segundo ela, empresas raramente emitem a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) para transtorno mental. Trabalhadores evitam declarar a origem da doença por medo de discriminação. E a perícia nem sempre aplica o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP), mesmo quando outros profissionais de saúde já reconheceram a relação com o trabalho. Na prática: o número de gente afastada por saúde mental é maior do que o número de gente cuja causa oficial aponta para o emprego. Isso sugere subnotificação, não ausência de relação.

Afastamento não é toda a demanda: é só a ponta visível

O benefício por incapacidade temporária mede uma coisa específica: quem já chegou a um ponto de adoecimento reconhecido pela perícia do INSS, com laudo, análise documental e concessão formal. É uma fração pequena de quem está em sofrimento psíquico. A maior parte das pessoas que procura psicoterapia nunca chega perto de um benefício previdenciário. Busca ajuda antes, ou busca ajuda em paralelo a continuar trabalhando.

Por isso o dado da Previdência funciona melhor como termômetro do que como estimativa de mercado. Ele não diz quantas pessoas estão em terapia no Brasil, nem quanto cresceu a procura por atendimento particular. Diz que o número de pessoas cujo sofrimento psíquico chegou a comprometer a capacidade de trabalhar aumentou dois anos seguidos, em dois dígitos. Uma curva assim, subindo nesse ritmo, é indício razoável de que a procura por psicoterapia também aumentou no Brasil fora do sistema previdenciário. Mas essa relação é inferência, não um número publicado em fonte oficial.

Agenda de papel aberta sobre uma mesa, com vários compromissos anotados
O crescimento do afastamento por transtorno mental é mensurado; o crescimento da procura por terapia particular, não.

Uma norma nova está prestes a formalizar parte dessa pressão

Em maio de 2026, entra em vigor a atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1). Ela passa a exigir das empresas o gerenciamento de riscos psicossociais no trabalho, assédio, sobrecarga, jornada exaustiva, com o mesmo rigor já aplicado a riscos físicos, químicos e ergonômicos. É a Portaria MTE nº 1.419/2024, com vigência originalmente marcada para maio de 2025. Foi prorrogada pela Portaria MTE nº 765/2025 para 25 de maio de 2026. O texto completo está em /blog/nr-1-psicologo-maio-2026-o-que-muda.

O efeito prático para quem atende clínica é indireto, mas real. Empresas que hoje tratam saúde mental como benefício opcional passam a ter obrigação regulatória de mapear e agir sobre esses riscos. Isso não aumenta a fila do seu consultório amanhã. Mas empurra o tema para dentro da conversa corporativa de um jeito que não estava antes.

O que fazer com esse dado, na prática

O número da Previdência não serve para prometer nada a ninguém, nem a você, nem ao paciente. Serve para três decisões concretas de quem administra a própria agenda.

Revisar a lista de espera como estrutura, não como imprevisto. Se a curva de procura por saúde mental está subindo há dois anos consecutivos, uma lista de espera desorganizada deixa de ser um problema pontual. Vira o ponto onde a agenda perde previsibilidade com mais frequência. O post /blog/organizar-agenda-consultorio detalha como transformar a lista de espera em rotina, não em gentileza ocasional.

Rever a triagem antes de aceitar mais gente. Agenda em alta demanda tenta preencher horário rápido demais, e isso custa caro depois: incompatibilidade clínica, encaminhamento tardio, desgaste. Vale a pena revisar o critério de aceitar, encaminhar ou recusar um caso novo antes de a fila ficar maior do que dá para sustentar.

Não usar o número como argumento de venda. "A procura por terapia está em alta" é fato com fonte. "Você precisa de terapia agora", dito a alguém que não pediu, é outra coisa. O Código de Ética Profissional do Psicólogo trata isso como matéria de publicidade e captação, não de informação.

O que esses dados não dizem

Vale ser explícito sobre o que a Previdência Social não publicou. Não há, nas fontes oficiais consultadas, um número de quantas pessoas estão em psicoterapia no Brasil, nem taxa de crescimento da procura por atendimento particular ou por convênio. O CFP não publica esse dado de forma pública e recente. Toda comparação entre "mais gente afastada" e "mais gente em terapia" é inferência razoável a partir de um dado real. Não deve ser apresentada como se fosse o mesmo número.

Os números com fonte confirmada são estes: 546.254 benefícios por transtorno mental concedidos pelo INSS em 2025, alta de 15,66% sobre 2024; 472.328 concedidos em 2024, alta de 68% sobre 2023; e crescimento de 104,07% no total de concessões entre 2019 e 2024, segundo a Fundacentro. O resto, o que isso significa para a fila do seu consultório, é leitura, não estatística.

Para dimensionar quem está do outro lado do balcão: o Conselho Federal de Psicologia registra 600.286 psicólogas e psicólogos ativos no Brasil, segundo o infográfico oficial da categoria, atualizado em 28 de maio de 2026. São Paulo concentra o maior número de profissionais (176.827), seguido por Rio de Janeiro (66.036) e Minas Gerais (65.537). É a mesma ordem de grandeza, mas não a mesma proporção, do ranking de benefícios concedidos por estado.

Conteúdo informativo, escrito para apoiar a sua prática. Não substitui a leitura das normas vigentes do CFP nem a orientação do seu conselho regional.

Registro de sessão em cinco linhas, no mesmo dia.

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