Gravar e transcrever a sessão automaticamente não é a única forma de IA que já chegou ao prontuário. Existe uma segunda, mais discreta e mais fácil de justificar: pedir para um assistente de inteligência artificial resumir uma evolução longa, reescrever uma anotação de forma mais clara, ou revisar um relatório antes de enviar. É rápido, parece seguro, porque o texto já foi escrito pelo próprio psicólogo, e é exatamente aí que mora o risco que a maioria dos textos sobre o tema não separa da transcrição de áudio.
O caso de usar IA para resumir prontuário psicológico é diferente do caso de transcrever sessão por IA, já tratado em transcrição de sessão por IA: o que avaliar. Ali, a IA converte fala em texto. Aqui, ela reescreve um texto que já existe, e o risco muda de natureza: não é mais erro de reconhecimento de voz, é a ferramenta inventar, resumir errado ou suavizar algo que o texto original dizia com outra ênfase.
O que a posição do CFP já resolve sobre isso
O posicionamento do CFP de julho de 2025 e a cartilha de dezembro do mesmo ano, detalhados em inteligência artificial na psicoterapia: o que o CFP autoriza e o que veda, tratam esse uso dentro da categoria mais ampla de IA como apoio à sistematização de dados e à organização de prontuário. É permitido, com uma condição que aparece repetida no documento: supervisão do profissional sobre o resultado, sem delegar à ferramenta a função de diagnóstico, avaliação ou intervenção. Resumir uma evolução clínica não é, em si, diagnosticar. Mas se o resumo altera nuance clínica relevante, e o profissional cola o resultado sem reler linha a linha contra o texto original, a fronteira entre "resumir" e "reinterpretar sem querer" já foi cruzada.
O risco específico: alucinação em texto com formato clínico
Modelo de linguagem pode produzir conteúdo com aparência de exatidão que não corresponde ao que estava no texto original, um comportamento tecnicamente chamado de alucinação. A cartilha do CFP já nomeia esse risco de forma direta, junto com o de viés: um sistema treinado majoritariamente numa base de dados pode ser mais validante com um perfil de paciente e mais minimizador com outro, sem que isso apareça de forma visível no resultado entregue.
Fora da psicologia, mas relevante para entender o tamanho do risco, o Superior Tribunal de Justiça excluiu, em abril de 2026, um relatório produzido por inteligência artificial generativa dos autos de um processo (HC 1.059.475/SP, relator ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma), afirmando que prova precisa de método, reprodutibilidade e auditabilidade, e que sistema generativo "opera por padrões estatísticos, com risco de alucinação e sem transparência" sobre os critérios usados. O caso não é da área da psicologia, mas ilustra como a Justiça brasileira já trata com desconfiança documento gerado por IA sem trilha de revisão humana clara, o que é exatamente o padrão de cautela que a cartilha do CFP pede para qualquer resumo clínico gerado por IA.
Onde a produtividade realmente ajuda
Nem todo uso é problema. Organizar ideias soltas de uma anotação rápida em uma estrutura mais legível, sugerir uma reescrita mais clara de um trecho confuso, ou gerar um rascunho inicial de relatório para o profissional editar linha a linha, são usos que a própria cartilha do CFP reconhece como possíveis, desde que a revisão humana qualificada aconteça antes de qualquer coisa virar documento oficial. A diferença entre isso e o risco não está na ferramenta, está no que acontece depois que ela entrega o resultado.
Onde a produtividade vira risco ético
Três situações concentram o problema. Primeira: usar o resumo gerado por IA como o próprio registro, sem reler contra o texto original, o que abre espaço para que uma alucinação vire prontuário oficial sem ninguém perceber. Segunda: alimentar a ferramenta com conteúdo clínico sensível numa plataforma sem garantia clara de que aquele texto não será usado para treinar outros modelos, o mesmo alerta que a cartilha do CFP já fez para transcrição de áudio, e que vale igualmente para texto. Terceira: deixar que o tom ou a interpretação que a IA imprime ao resumo substitua o raciocínio clínico do profissional, especialmente em caso de risco, onde nuance de linguagem importa.
Um exemplo hipotético do tipo de erro que interessa
Suponha uma evolução de sessão que registra: "paciente relatou episódio de irritação com o cônjuge, sem menção a agressão física". Um resumo malfeito por IA pode condensar isso para "paciente relatou conflito conjugal", perdendo a informação específica de que não houve agressão, um detalhe que muda de figura se aquele prontuário for lido meses depois num contexto de guarda de filho ou medida protetiva. Não é um exemplo real de nenhum caso, é uma ilustração do tipo de perda de precisão que resumo automático pode introduzir sem alarme nenhum, porque o texto resultante continua lendo bem e parecendo coerente.
Ferramenta genérica de escrita não foi feita para prontuário
O mesmo alerta que já vale para transcrição de sessão vale aqui: uma ferramenta de IA de uso geral, pensada para resumir e-mail ou reescrever texto de marketing, não foi desenhada considerando o peso jurídico e ético de um documento que pode virar prova em processo, ser lido por perito, ou fundamentar decisão sobre guarda, licença médica ou continuidade de tratamento. A pergunta não é só "essa ferramenta resume bem", é "essa ferramenta foi pensada para lidar com este tipo de conteúdo, com este nível de consequência".
Se um resumo com erro já virou parte do prontuário
Quando isso acontece, o caminho não é apagar o registro. É seguir a mesma lógica de qualquer correção de prontuário: emitir uma nova entrada que corrige e substitui o conteúdo anterior, com data própria e menção explícita ao que estava errado, preservando o histórico completo. O passo a passo dessa correção, incluindo por que apagar não é a resposta certa, está em como corrigir um erro no prontuário psicológico.
Checklist antes de usar IA para reescrever ou resumir prontuário
- Releia o resultado contra o texto original, frase a frase, antes de considerar o resumo como registro válido.
- Verifique a política de dados da ferramenta: se o conteúdo enviado pode ser usado para treinar outro modelo, e onde ele fica armazenado enquanto isso.
- Não use o resumo como decisão clínica: ele organiza texto, não substitui raciocínio sobre risco, diagnóstico ou conduta.
- Registre o uso da ferramenta, não só o resultado, seguindo o mesmo princípio de transparência já recomendado para transcrição por IA.
- Desconfie de resumo bom demais: texto muito fluente pode estar suavizando ou generalizando algo que o original dizia de forma mais específica ou mais grave.
O que ainda não tem resposta fechada
Não existe resolução do CFP específica sobre uso de IA para resumir ou revisar texto de prontuário já escrito: o que existe é a orientação da cartilha, documento técnico, aplicada por analogia a esse uso dentro da categoria mais ampla de sistematização de dados assistida por IA. Isso não abre uma zona sem regra, abre uma zona em que a regra é de princípio, supervisão humana, sem delegação de diagnóstico, e cabe ao profissional documentar como aplicou esses princípios ao caso concreto.
A pergunta que resta antes de usar qualquer ferramenta desse tipo não é se ela economiza tempo, ela provavelmente economiza. É se, depois de economizar o tempo, alguém ainda vai gastar o tempo de reler o resultado com o mesmo cuidado que gastaria escrevendo do zero.
Conteúdo informativo, escrito para apoiar a sua prática. Não substitui a leitura das normas vigentes do CFP nem a orientação do seu conselho regional.
