Dá, sim. O Google Meu Negócio para psicólogo, hoje chamado de Perfil da Empresa no Google, aceita quem não quer o endereço do consultório exposto na busca: o perfil é configurado como empresa de serviço local, com área de atendimento no lugar do endereço visível. O que a documentação do Google não resolve é a outra metade do problema. A ficha vem com avaliações públicas, e uma resposta mal escrita a uma avaliação confirma, na frente de qualquer pessoa, que quem escreveu é seu paciente.
Este texto foi conferido em 16 de setembro de 2026 contra as diretrizes para representar sua empresa no Google e contra o art. 20 do Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005). A documentação do Google muda sem aviso e sem data de revisão na página: reveja a página oficial antes de aplicar qualquer passo daqui. Nada aqui substitui a consulta ao seu CRP diante de um caso concreto.
Google Meu Negócio para psicólogo: quem se qualifica a ter perfil
A regra de qualificação cabe numa frase. Segundo as diretrizes do Google, a empresa precisa ter um local físico que os clientes possam visitar, ou se deslocar até onde o cliente está. É por esse par que passam quase todas as dúvidas de consultório.
O Google tem uma figura para quem trabalha sozinho, a de profissional liberal: alguém que "lida com o público e geralmente tem a própria base de clientes". A documentação cita médico, dentista, advogado, consultor financeiro e corretor. O psicólogo autônomo se encaixa nessa descrição, e daí saem algumas consequências práticas:
- O perfil é seu, não da sala. Quando o profissional divide espaço com uma organização, o título do perfil deve trazer só o nome dele, sem o nome da organização. Quando ele representa uma marca única, o formato indicado é "[marca]: [nome do profissional]".
- Um perfil por profissional, não um por especialidade. A documentação proíbe múltiplos perfis para cobrir várias especializações. Quem atende adulto e criança não abre dois perfis: a diferença entra nos serviços descritos.
- Quem dá apoio não abre perfil. Recepção e secretaria não são profissionais liberais para esse efeito.
O perfil é um canal entre outros. Por onde os primeiros pacientes chegam de fato, e o que o art. 20 do Código de Ética permite em cada canal, está em como conseguir os primeiros pacientes do consultório.
Google Meu Negócio para psicólogo sem endereço: a área de atendimento
Se a empresa não recebe ninguém na sede, a orientação do Google é direta: remova o endereço do perfil e trabalhe com área de atendimento. A ficha continua existindo e aparecendo; o endereço é que fica oculto para quem busca.
O que a documentação de área de atendimento delimita:
- Até 20 áreas, definidas por cidade, CEP ou região.
- Cobertura máxima de cerca de duas horas de deslocamento a partir da base da empresa. Desenhar meio estado contraria a regra.
- Precisão. A área declarada deve corresponder ao lugar onde o serviço é de fato prestado.
Ocultar o endereço na exibição não dispensa informá-lo no cadastro. O Google pede o endereço real e impõe uma condição a quem escolhe exibi-lo: precisa haver indicação fixa e permanente do nome no endereço. Caixa postal e número de conjunto vão em campo separado, nunca como endereço principal, e endereço virtual não é aceito.
Isso resolve dois casos comuns de consultório:
- Sala por hora em coworking. Só serve como endereço exibido se houver sinalização clara, atendimento durante o horário informado e equipe presente. Sem placa e sem ninguém na recepção, a sala não cumpre o requisito. Os outros pontos a conferir antes de fechar esse contrato estão em o que verificar num coworking para psicólogos.
- Atendimento na residência do profissional. A orientação é limpar o endereço do perfil. O endereço de casa não é um detalhe de configuração: publicado, ele fica indexado.
Há um caso que a documentação consultada não prevê: o psicólogo que atende exclusivamente por vídeo, sem receber ninguém e sem se deslocar até paciente algum. As duas hipóteses de qualificação foram escritas em torno de presença física, e nenhuma descreve esse arranjo. A prática difundida de declarar área de atendimento sem jamais se deslocar não está na página de qualificação, e não vou afirmar que funciona nem que é proibida. Se a sua atuação é só online, a decisão sobre modalidade, viabilidade e registro é sua, e está regulada em outro lugar: veja o que mudou com a Resolução CFP 9/2024 e o roteiro de teleconsulta na prática.
Categoria, nome do perfil e os títulos que você pode exibir
A orientação do Google é escolher a categoria mais específica da lista (o exemplo da própria documentação é preferir "Salão de manicure" a "Salão") e, se a específica não existir, usar a geral que descreva a empresa. A página oficial sobre categoria diz que as categorias selecionadas afetam a classificação local. Afetar não é garantir: ninguém, nem o Google, promete posição.
O campo de nome tem regra própria. Ele deve refletir o nome real da empresa, e o Google proíbe acrescentar ali oferta, preço, promoção ou descrição de serviço. A proibição coincide, por outro caminho, com o art. 20, alínea "d", do Código de Ética, que veda usar o preço do serviço como propaganda. "Psicóloga, primeira sessão grátis" quebra as duas regras de uma vez.
A identificação profissional obrigatória, portanto, não cabe no campo de nome. O art. 53 da Resolução CFP nº 003/2007 e o art. 20, alínea "a", do Código de Ética exigem, em toda publicidade, nome completo, a palavra psicólogo, a sigla do Conselho Regional e o número da inscrição. O lugar disso no perfil é a descrição e o site vinculado. Sobre o que exibir como qualificação, o art. 20 fecha em duas alíneas: apenas títulos que você possua ("b") e apenas práticas reconhecidas ou regulamentadas pela profissão ("c"). A lista de serviços do perfil obedece a isso.
O que não entra no perfil, mesmo quando o Google oferece o campo
O formulário do Google é o mesmo para pizzaria e para consultório. Vários campos que ele abre você não pode preencher:
- Preço, pacote e promoção. Vedado pelo art. 20, "d", do Código de Ética, e recusado também pela regra de nome do Google.
- Previsão taxativa de resultado. Vedada pelo art. 20, "e", e pelo art. 56, I, da Resolução CFP 003/2007. Nada de "ansiedade resolvida" na descrição.
- Técnica sem fundamentação científica. O art. 56, II, veda propor atividades, recursos e resultados relativos a técnicas psicológicas que não estejam cientificamente fundamentadas.
- Comparação com colegas. O art. 20, "f", e o art. 56, V, vedam autopromoção em detrimento de outros profissionais.
- Atividade privativa de outra categoria. Vedada pelo art. 20, "g".
- Tom sensacionalista. Vedado pelo art. 20, "h", e pelo art. 56, VII, que fala em divulgação com conteúdo falso ou sensacionalista, ou que fira os sentimentos da população induzindo-lhe demanda.
Esse recorte é o da ficha de busca local. O que você publica em rede social tem norma própria, com identificação exigida em cada post, e está tratado em publicidade do psicólogo nas redes sociais. Lá o assunto é o conteúdo que você produz; aqui, o cadastro que o buscador exibe e as avaliações que outras pessoas escrevem nele.
Avaliação de paciente: por que você não deve pedir nenhuma
A Nota Técnica CFP nº 1/2022 é explícita: na publicidade, o psicólogo não pode usar depoimento de pessoa atendida nem compartilhar depoimento e foto de quem atende. O documento registra que, havendo consentimento expresso por escrito, o uso passa a ser permitido mas não recomendado, pela possibilidade de exposição da pessoa atendida. Leia o trecho na íntegra na nota técnica publicada pelo CFP.
A avaliação no Google não é publicidade sua: é conteúdo de terceiro, que você não controla e não pode apagar. Mas há uma coisa que você controla, e é onde mora o risco: pedir. Solicitar avaliação a quem você atende é induzir a pessoa a declarar publicamente, com nome e foto de perfil, que faz terapia com você. O vínculo terapêutico é dado referente à saúde, e portanto dado pessoal sensível pelo art. 5º, II, da Lei nº 13.709/2018. É o mesmo raciocínio que vale para o resto da rotina digital do consultório, tratado em LGPD para psicólogos.
Do lado do Google, as políticas de conteúdo fecham as outras saídas. É proibido oferecer incentivo, seja pagamento, desconto, produto ou serviço gratuito, em troca da publicação de uma avaliação ou da remoção de uma avaliação negativa. O Google também remove conteúdo baseado em conflito de interesse, o que inclui avaliação escrita por quem tem relação profissional, contratual ou pessoal com o negócio. Avaliação de sócio, de supervisor, de familiar ou sua própria viola a política.
Como responder a uma avaliação sem confirmar que a pessoa é paciente
Este é o ponto que os tutoriais de marketing não cobrem, e é o que separa uma resposta segura de uma infração ética. A armadilha é a gentileza. "Obrigada pela confiança ao longo desses meses" e "fico feliz que o processo esteja rendendo" são frases simpáticas que fazem uma coisa só: confirmam, em público e para sempre, que aquela pessoa identificada por nome e foto é atendida por você.
O art. 9º do Código de Ética manda respeitar o sigilo profissional para proteger a intimidade das pessoas a que o psicólogo tem acesso no exercício profissional. A informação protegida não começa no conteúdo da sessão; começa na existência dela.
O que a resposta não pode conter, em nenhuma hipótese:
- Confirmação do vínculo. Nada de "nossas sessões", "seu processo", "desde que você começou", "no seu caso".
- Qualquer dado da pessoa. Nome, frequência, motivo da procura, tempo de acompanhamento, se veio por encaminhamento.
- Negativa do vínculo. "Você nunca foi meu paciente" parece a defesa óbvia e é o mesmo erro pelo avesso: você passou a comentar publicamente o status de alguém. Confirmar e negar são, os dois, informação.
- Correção da versão dos fatos. Responder a uma queixa específica com o que "de fato aconteceu" é relatar atendimento em praça pública.
O que funciona é uma resposta padrão, escrita com antecedência, igual para avaliação boa e ruim, em que só a primeira frase muda. Algo nesta linha:
"Agradeço a mensagem. Por dever de sigilo profissional, não comento neste espaço atendimentos nem informações de qualquer pessoa, em nenhuma circunstância. Para falar diretamente comigo, o contato do consultório está no perfil."
Ela agradece, explica por que não vai além e não diz uma palavra sobre quem escreveu. Quem chega depois entende o motivo do silêncio, e isso costuma valer mais, para quem procura psicólogo, do que uma réplica bem argumentada.
Quando a avaliação expõe conteúdo de atendimento, existe um caminho além da resposta. As políticas do Google proíbem divulgação de informação pessoal identificável, incluindo dado médico, e a ferramenta de denúncia permite pedir a análise. A documentação avisa que a análise costuma levar vários dias e é clara sobre o limite: não denuncie uma avaliação só porque você discorda dela ou não gostou. Nota baixa, sozinha, não é motivo de remoção.
Erros que geram denúncia ao CRP
- Pedir avaliação no Google a quem você atende, com ou sem consentimento por escrito.
- Oferecer desconto, sessão ou brinde em troca de avaliação, o que é infração ética e violação da política do Google ao mesmo tempo.
- Responder agradecendo o vínculo, ainda que sem citar nome.
- Publicar no perfil captura de tela de uma avaliação elogiosa como se fosse depoimento de divulgação.
- Colocar preço, promoção ou promessa de resultado na descrição ou no nome do perfil.
- Exibir título que você não possui na lista de qualificações.
- Manter o endereço residencial visível por não ter configurado a área de atendimento.
Perguntas frequentes
Preciso de CNPJ para criar o perfil? A documentação de qualificação do Google não condiciona o perfil a CNPJ. Ela exige local físico visitável ou deslocamento até o cliente, e contato direto no local verificado durante o horário informado. A formalização do seu trabalho é outra discussão, regida pelas regras fiscais e do CRP.
Posso usar "psicóloga especialista em ansiedade" como nome do perfil? Não. O nome deve refletir o nome real da empresa, sem descrição de serviço agregada, e o art. 20, "b", do Código de Ética só admite referência a títulos que você de fato possua. Especialidade e áreas de atuação vão na categoria, nos serviços e na descrição.
O Google remove uma avaliação falsa de quem nunca foi meu paciente? Pode remover, se a avaliação violar alguma política, como a de conteúdo enganoso ou não baseado em experiência genuína. A análise leva vários dias e o resultado não é garantido. Enquanto isso, a resposta padrão sem confirmar nem negar vínculo continua sendo o caminho.
Trabalho em clínica com outros psicólogos. Quem fica com o perfil? Cada profissional que lida com o público e pode ser contatado no local verificado se qualifica para um perfil próprio, e a clínica tem o dela. Quando o profissional divide espaço com a organização, o título do perfil dele traz só o nome dele.
Conteúdo informativo, escrito para apoiar a sua prática. Não substitui a leitura das normas vigentes do CFP nem a orientação do seu conselho regional.
